7 de julho de 2023 | Estratégia ESG, , , ,

O tempo que o tempo tem

Por Eduardo Nunes

Estamos avançando. Mas, não no ritmo e na intensidade desejados, é verdade. Esta semana o planeta registrou dois dias seguidos de recorde de temperatura, conforme indicado pelo Instituto de Mudança Climática (Climate Change Institute), da Universidade do Maine, nos Estados Unidos. Quanto tempo ainda temos para conter o aquecimento global?

Não é possível precisar ao certo, mas não é muito. Embora haja um consenso sobre a necessidade de frear o aquecimento global em até 1,5ºC em relação aos níveis de temperatura pré-industriais, as mudanças climáticas já em curso indicam que estamos muito aquém do atingimento da meta estabelecida em 2015, no famoso Acordo de Paris. A julgar pelo ritmo atual das emissões de CO₂, esse objetivo, na verdade, é virtualmente impossível de ser alcançado, alertam os cientistas.

Esta semana, o portal Um Só Planeta anunciou que, pela primeira vez, empresas e governos estão levantando mais dinheiro nos mercados de dívida para projetos “verdes” do que para aqueles que envolvem combustíveis fósseis. À primeira vista, parece ser uma notícia positiva, mas, ao olhar mais de perto, percebe-se que não é bem assim. O ponto é que esses títulos são emitidos por governos, instituições financeiras e empresas que também desenvolvem projetos de combustíveis fósseis, informa April Merleaux, gerente de pesquisa da Rainforest Action Network.

No setor privado, há um desejo e também um movimento, principalmente, das grandes empresas no sentido de construir uma jornada de descarbonização. Mas, quando se olha mais de perto, observa-se um cenário mais realista. De acordo com estudo do CEBDS e do Boston Consulting Group (BCG), embora o número de empresas brasileiras que adotam o SBTi (Science-Based Targets initiative) como metodologia para monitorar metas ou compromissos de redução de emissões tenha crescido 16 vezes entre 2019 e 2022, apenas 24% das emissões nacionais têm emissão reconhecida por empresas e, segundo os compromissos assumidos no SBTi, menos de 0,1% das emissões serão reduzidas até 2030.

Ontem, depois de 35 anos de espera, a Câmara dos Deputados aprovou em primeiro turno o texto-base da proposta de reforma tributária. Depois de tanto tempo, a reforma ganhou novos olhares, inclusive o viés de estratégica para estimular a descarbonização da economia nacional, com a possibilidade de alavancar investimentos em renováveis, por exemplo. A conferir se também será capaz de promover o desenvolvimento sustentável.

Estamos avançando, mas o tempo passa também. A reforma tributária precisou de mais de 35 anos. Quanto tempo ainda temos para aprender com a nossa história?

‘Nós vivemos a temer o futuro, mas é o passado que nos atropela e mata.’ (Mário Quintana)

Por: Eduardo Nunes