4 de abril de 2024 | Estratégia ESG, , ,

De casca em casca podemos proteger o planeta

Por Lívia Ferrari

Fui almoçar na casa de uma grande amiga. Ao término da refeição, me dirigi à cozinha para ajudá-la a lavar a louça. Imediatamente fui impedida de descartar os restos de comida na lata de lixo. ‘Não faça isso!’, alertou ela, me indicando, na sequência, um balde específico, coberto com serragem, onde os detritos de alimentos deveriam ser depositados.

A explicação: a cada semana os resíduos orgânicos acumulados no balde são coletados por uma empresa especializada. O material é destinado a compostagem e alimentação de minhocários que produzem adubo natural e nutrem lavouras saudáveis, livres de pesticidas e fertilizantes químicos. A cada semana, minha amiga enche vários baldinhos e acompanha com entusiasmo os relatórios de impacto de seu feito, enviados pela empresa gestora.

‘A vida doméstica é um laboratório de experiências ambientais, que, se bem sucedidas, são capazes de salvar o planeta’, diz a bióloga e advogada Cláudia Barbosa, delegada do meio ambiente da OAB. Em um ano de coleta sistemática, a minha amiga já gerou 92,5 quilos de resíduos compostados, que permitiram evitar a emissão de 0,074 toneladas de CO2 equivalentes, e foram responsáveis pela produção de 31 quilos de adubo orgânico.

A iniciativa não é isolada e mostra, na prática, que a união faz mesmo a força. Somada à coleta de resíduos dos demais clientes dessa empresa, os resultados são bastante promissores. Em um ano, o impacto coletivo total foi de 354 toneladas de resíduos compostados, capazes de evitar 283 toneladas de CO2 equivalentes, e produzindo 118 toneladas de adubo.

Numa comparação objetiva, esses números corresponderiam a 36.285 quilômetros rodados de forma limpa. Ou representariam a neutralização equivalente a 142 viagens de avião, ida e volta, Rio de Janeiro-Madri.

Ações como estas, aparentemente singelas e de alcance limitado, têm poder transformador de conscientização ambiental, mudança de padrão de comportamento e absorção de uma cultura preservacionista.

Minha amiga e os demais participantes do grupo são moradores de área urbana no Rio, vivem em apartamentos, em sua maioria na Zona Sul da cidade, e evitam desperdícios. Aprenderam que cascas de batatas, de cenoura e de demais legumes, talos de verduras, restos de alimentos, casca de ovos e tantos outros resíduos, antes considerados lixo, são totalmente reaproveitáveis, são fonte de vida e nos remetem aos ensinamentos de Antoine-Laurent de Lavoisier: ‘Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma’.

No processo de conscientização ambiental, empresas de gestão de resíduos sólidos conquistam clientes a cada dia, atuando na coleta e compostagem de materiais orgânicos de residências, restaurantes, indústrias e empresas em geral. Não existem dados precisos sobre o volume de resíduos gerados especificamente por empresas no Brasil. Sabe-se, contudo, que elas são responsáveis por parcela significativa das 80 milhões de toneladas que produzimos anualmente.

São muitos os desafios enfrentados pelo setor de gestão de resíduos sólidos no país, sobretudo devido à falta de infraestrutura adequada. Grande parte dos municípios brasileiros carece de aterros sanitários, usinas de triagem e compostagem.

A Lei 12.305/2010 instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), com instrumentos para o enfrentamento de problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos. Após tantos anos, infelizmente ainda é baixa a efetividade e a fiscalização do cumprimento da lei. Esta é uma agenda que precisa ser implementada com urgência e seriedade.

Por: Lívia Ferrari