Segundas-feiras têm gosto de ressaca. Umas mais que as outras.
Quem está na luta em defesa dos temas sociais e igualdades, de gênero, raça etc. talvez ainda não tenha se recuperado do baque de ter os dois principais ministros do atual governo como protagonistas de manchetes que falam de assédio.
Primeiro, pela surpresa de ver como acusado um ícone dos direitos humanos, que bradou em seu discurso de posse, em 2023, como sendo sua prioridade o combate ao assédio. Segundo, porque muitas esperavam que a vítima, tão empoderada em sua luta, como ministra, tivesse agido à altura e colocado a boca no trombone. Afinal, como é comum a todas nós, fácil julgar as outras quando não estamos em sua pele. ‘Ao não formalizar a acusação, (a ministra) abre espaço para especulações desnecessárias, demonstra fragilidade não-condizente com o cargo e deixa de servir de exemplo para uma sociedade tão carente de referências para mulheres que poderiam ver nela a força necessária para reagir’, diz Mariliz Pereira Jorge em artigo na Folha.
Sim, sabemos que naquelas 24 horas de tensão entre a veiculação da denúncia na imprensa e a demissão do ministro, havia pelo menos mais de 100 mil mulheres caladas por dias, meses, anos, décadas, esperando um exemplo forte para se inspirar. Porque é difícil falar sobre, porque é difícil provar, ou porque ‘ele’ é poderoso ou muito admirado, ou porque tem medo de passar de vítima à ré.
Teria a ministra denunciado o assediador se fosse outro que não seu parceiro na luta, um homem negro? Teria denunciado se fosse outro seu momento de vida, às vésperas de um casamento? Teria denunciado se fosse outro o momento do assediador, com um filho recém-nascido? Teria denunciado se fosse outro ministro que não justamente o seu par na luta por direitos humanos, num governo empossado há um ano e meio com a missão de reverter o estrago feito nos últimos anos no campo social?
As ‘camadas’ que impedem uma mulher assediada de fazer uma denúncia são tantas e tão diversas que só o sabe quem passa por isso na pele. Flávia Oliveira joga luz a algumas delas numa edição extra do podcast O Assunto. Como mulher, Anielle teve seus motivos para se calar. Como ministra, teria o dever de denunciar? Sim. É justo cobrar? Não.
A cobrança deve vir sobre o acusado – em que pese a necessidade de investigação. Era esperado que não cometesse esse erro crasso. Nem como homem, nem como ministro. E não estaríamos escrevendo essa página infeliz na nossa história.
Aliás, não deveríamos sequer ter sabido o nome da vítima. De Anielle, ou qualquer outra. É dado a elas o direito ao anonimato para preservar sua privacidade, relações pessoais, para não revitimizá-las e não as colocar numa posição de serem cobradas por quaisquer atitudes ou não-ação. Seja como mulher, seja por qualquer cargo, posto ou condição que ocupem.
‘Está na hora de sair da infância da militância de redes sociais. Ler e estudar é um caminho, mas principalmente deixar de endeusar seres humanos. O mundo não acabou. Uma pessoa errou feio, e é isso. Temos mais de 380 anos de história de luta neste lugar chamado Brasil’, disse Eliana Alvez Cruz com sobriedade em suas redes sociais, chamando à razão.
Assédios ocorrem na direita, na esquerda, no centro, em cima da gente e debaixo dos nossos olhos. De quem menos se espera. Nenhum espectro político, classe social, parentesco, conhecimento acadêmico, rostinho bonito, currículo invejável ou projeção ativista está livre dos males estruturais da sociedade machista e misógina.
O que difere cada situação como a que ocorreu é como vamos tratar dos nossos dramas, crimes, decepções e angústias. E ao contrário do que se estampou em 9 entre cada10 perfis de Instagram de celebridade no final de semana, não, não perdemos todos. Mesmo que tenha havido demora na denúncia ou fragilidade na apuração, mesmo que doa, mesmo que a gente chore e a oposição se delicie. Quando uma mulher é ouvida e acolhida, se houver a responsabilização do homem (e não do mito) pelos erros, violências e seu crime, ganhamos um pouco.
Levanta a cabeça, toma uma aspirina, porque já não cabe mais ressaca.
Segunda-feira é dia de renovar a luta.

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