Colocados lado a lado, os mapas mostram uma incômoda convergência. Conforme estimativa divulgada pela Conab no final do ano passado, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins devem representar 58% da produção de grãos na safra 2022/23.
Na semana passada, o Inmet emitiu alerta máximo de calor e baixa umidade em todos esses estados. No último dia 5, foi registrado o sexto dia consecutivo de temperatura acima de 43ºC em Mato Grosso do Sul e de 41ºC em São Paulo.
De acordo com Willians Bini, da área de meteorologia da Climatempo, as temperaturas acima da média no inverno e durante a primavera e o verão, associadas ao El Niño, devem ser ponto de atenção para os produtores. Os impactos sobre produção de grãos e leite são fatores de incerteza. A pecuária leiteira é diretamente prejudicada, porque o bem-estar, a saúde e a produtividade dos rebanhos dependem do clima.
A última edição da Análise das Emissões de Gases de Efeito Estufa, lançado pelo SEEG/Observatório do Clima, informa que o uso da terra respondeu por 49% das emissões brutas brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) em 2021. Somado ao desmatamento e outras mudanças de uso da terra, o setor agropecuário representa 74% de todas as emissões brasileiras de GEE.
Com base em um estudo da Universidade de York, no Reino Unido, o documento estima que entre 90% e 99% do desmatamento tropical seja associado à agropecuária. Uma das conclusões é de que “o desmatamento, em grande parte criminoso, especulativo e descolado da produção de riqueza, distorce a curva nacional de emissões”.
Os dados sugerem que a agropecuária brasileira enfrenta uma curiosa contradição. Ao mesmo tempo em que é responsável pela maior parte das emissões de GEE, é um dos setores mais impactados pelas mudanças climáticas.
Na última quarta-feira (4/10), a Comissão de Meio Ambiente do Senado aprovou, por unanimidade, o projeto que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. Após um acordo com a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), a senadora Leila Barros (PDT/DF), relatora da matéria, deixou de fora o agronegócio de fora das novas regras. O projeto segue agora para apreciação da Câmara dos Deputados.
O argumento para a exclusão seria a ausência de métricas no mundo para se medir e fazer uma compensação com créditos de carbono na atividade agropecuária. Em entrevista ao Valor Econômico, o engenheiro florestal Tasso Azevedo, criador do SEEG e um dos maiores especialistas do tema no país, afirma que “deixar esse setor de fora é ridículo”.
Mercados de carbono foram criados no mundo para ajudar setores muito poluentes a reduzir suas emissões e se modernizar. Na Europa, onde existe o primeiro e mais estruturado mercado regulado de carbono, o sistema é um dos pilares da descarbonização do bloco, que opera como instrumento de pressão sobre o setor de energia a reduzir as emissões de GEE e a buscar novas tecnologias.
Na medicina, a autofagia é um processo de regeneração natural que ocorre em nível celular no corpo, reduz a probabilidade algumas doenças e a aumenta a longevidade. No caso do setor agropecuário no debate sobre o mercado regulado de carbono, a autofagia não tem nada de regeneração. Muito pelo contrário.

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